ONDE A NOITE É ESCURA
Eu recordo, quando era criança, as viagens que fazíamos toda a família — meus tios, primos, meus pais, minha irmã e eu — para o Sítio. O Sítio, como sempre o chamamos, ficava (ou melhor, fica: ele ainda está lá) no interior de Minas, perto de uma pacata cidade chamada Santo Antônio do Aventureiro — onde eu, inclusive, fui batizado (e a história de como minha madrinha, tia Ezi, convenceu o padre, numa dessas viagens, a me batizar sem ter agendado absolutamente nada, ganhando a aposta que fez com meu pai e meu tio à época, essa ficou famosa na família). O Sítio é, com certeza, o lugar que mais marcou minha infância. Mais do que minha própria casa, a ponto de eu dizer que, se não fosse ele, minha visão de mundo seria outra. O motivo de tamanha preciosidade é simples: justamente a simplicidade. A naturalidade das coisas naquele pedaço infinito e retrógrado de mundo.
Sei que muitas pessoas, leitores casuais deste post, devem ter crescido viajando inúmeras vezes para a casa de praia de sua família. Sendo eu do Rio de Janeiro, capital, e nascido em 1980, lembro vários amigos cujos pais ou tios possuíam um recanto na região dos Lagos, em Jaconé, Araruama, Saquarema, São Pedro, ou do outro lado, Mangaratiba, Angra, Parati, enfim. Todos são lugares legais. Nas vezes em que visitei alguns deles, naquela época, pude perceber que também carregavam um quê dessa simplicidade da qual me refiro. A questão, porém, é que — e me desculpem aqui, antes de qualquer coisa, os amantes das ondas e do pé na areia — sempre preferi um lugar mais isolado, no meio do mato, cercado de colinas e recheado de mistério. Uma roça para ser direto! Talvez esse gosto tenha brotado justamente por causa do Sítio. Não sei. Fato é que, por isso, quando meus amigos me chamavam para ir com eles, era eu quem os tentava convencer a virem comigo porque eu sabia: não havia outro local igual ao Sítio.
Olhando para trás, me sinto um afortunado por haver tido a sorte de desfrutar daquele ambiente e de todos os momentos mágicos proporcionados por ele durante o primeiro ciclo de minha vida. Por isso considero esse lugar tão importante. Nessa fase, é quando maturamos nossos desejos, aqueles que permanecerão vivos em nossa memória e nos farão buscar, no futuro, algo semelhante — eu parti para as montanhas, para a natureza (a imagem do lugar sem tantos recursos e que podia ser vivido com plenitude nunca me deixou). Posso dizer, por causa do Sítio, que tive uma infância perfeita (até porque, na cidade, também me divertia com meus colegas do prédio, da rua, da escola, inventando mil brincadeiras, do tipo, claro, analógicas). Meu padrinho, tio Holien, adquiriu aquele terreno pouco tempo antes de eu nascer. Meus avós moravam distante, perto da fronteira entre Minas e Goiás. O Sítio se tornou a nova morada deles, a cerca de quatro horas do Rio onde seus filhos (minha tia Marina, meu tio Holien, meu tio Hordélio e meu pai) foram morar atrás de melhores condições — só tio Hordelito foi para Brasília. Na realidade, essa constância em ir para as terras mineiras se manteve até eu quase completar meus vinte anos, quando fui para o Exército. Todo feriado, pegávamos a estrada. No começo, cabiam todos na Kombi bege de meu padrinho (que depois trocou por uma branca). Com o tempo, como mais pessoas foram sendo convidadas a se juntarem ao grupo familiar — e, quem quer que pisasse no Sítio uma vez, desejava logo retornar — a viagem virou uma verdadeira caravana de carros.
Eu teria que escrever um livro se quisesse elencar todas as passagens marcantes, aventuras na floresta, momentos engraçados, brincadeiras de susto, expedições pelo terreno e mais um milhão de coisas guardadas em minha retina de nossas idas ao Sítio. Não há um dia sequer que eu não me lembre dele. Somente para tentar não me esquecer de nenhuma delas, caso a ideia do livro (que é boa) fosse à frente, precisaria anotar e rever tudo por semanas a fio. Na verdade, meses! Teria que voltar lá e escrever as páginas vibrantes desta obra na mesa da cozinha onde, quando chegava a noite, nos reuníamos para jogar Buraco (isso quando ainda éramos menores; um pouco mais velhos, preferíamos sair em Aventureiro para ver as garotas).
De todos os momentos passados nele, talvez um represente, para mim, a maior grandeza que o Sítio possuía. E aqui eu faço uma ponte com a cena de uma obra do premiado diretor japonês Akira Kurosawa assistida por mim estes dias. No filme intitulado Sonhos, em um dos cortes chamado A aldeia dos moinhos d’água, a mensagem que ele buscou transmitir tem, de certa forma, algo a ver com a tal simplicidade sobre a qual mencionei fluir nos ares e no açude de águas turvas onde tantas vezes mergulhei no Sítio. Nesse “sonho” acontece a cena de um diálogo entre um jovem andarilho e um ancião que vive numa aldeia isolada. O jovem se espanta ao chegar ao vilarejo e notar que suas casas não possuem eletricidade. Ele pergunta ao velho (que ele encontra consertando a roda de um moinho) o porquê de eles viverem daquela forma, sem a praticidade oferecida por essa tecnologia tão usual e tão necessária na cidade. O ancião responde não precisar daquilo porque ele e os demais moradores do lugar entendem que a conveniência gerada pela tal eletricidade, no fundo, mais do que ajudar, esconderia coisas realmente preciosas. Ela acabaria com o que realmente tem valor. Quando o forasteiro lhe pergunta como faziam para iluminar a noite, o ancião lhe responde não ser preciso, pois “a noite é para ser escura”. Ele reforça sua ideia dizendo que “não gostaria de uma noite tão clara que escondesse a luz das estrelas”.
Ainda muito novo, eu ficava empolgado com o fato de existir uma grande diferença entre as noites que eu presenciava morando no Rio e cada noite passada no Sítio. Era nítida a mudança! O quanto, lá, a noite, de fato, era verdadeiramente noite — embora existisse na casa, diferente da vila do ancião de Kurosawa, luz elétrica. Naquela roça, a escuridão podia ser notada. As estrelas podiam ser vistas. Até brincávamos procurando as Três Marias sempre. Eu gostava da constelação de Órion, o “caçador”.
Quando dormíamos ainda todos no casebre de meus avós (ao comprar o Sítio, já existia nele uma casa simples com poucos quartos onde a família inteira se ajuntava para caber — depois meu tio ergueu uma casa maior numa outra parte do terreno, isso quando eu já tinha uns nove anos), eu tinha o hábito de, quando a noite caía, antes de dormir, ficar observando pela janela as luzes pálidas das casas no horizonte. Havia um ponto distante, outro mais distante ainda. Entre eles, escuridão. Eu observava pelo vidro que havia na porta o exterior da casa. Era curioso como o brilho da lamparina pendurada na varanda cobria um pequeno trecho diante dela. Todavia, além daquele halo, tudo era breu. Tudo era mistério! Eu sentia como se, àquela hora, os perigos das redondezas, das matas em volta, como animais e criaturas de lendas contadas pelos adultos se aproveitassem da noite para se aproximar da casa. Era excitante. E, muitas vezes, meu pai chamava a mim, meu primo e nossos amigos — convocava, na realidade; era quase uma intimação para cada um provar sua coragem — para nós todos desbravarmos a escuridão das cercanias. Corria um frio na espinha! Era uma aventura e tanto! Uma que não podia se repetir na cidade porque nela aquele mundo não existia mais por causa, dentre outras coisas, do excesso de luz.
Essa simplicidade misturada ao mistério podia ser contemplada em muitas situações vividas no Sítio. Fosse de noite, fosse durante o dia. O próprio isolamento do local: naquele tempo sem tantos recursos, como não havia telefone na casa ou, quando o puseram, ele vivesse quebrado, para “termos contato com o mundo”, tínhamos que ir até a cidade e fazer uma ligação na Central. Até assistir TV era difícil porque a antena não pegava direito; o Bombril não resolvia. Era uma imagem em preto e branco e sempre distorcida. Mas tudo isso faz parte de outro contexto que vale, talvez, mais a frente, outro texto.
Por coincidência, no dia seguinte após eu ter revisto o filme Sonhos (havia assistido somente uma vez na faculdade), faltou luz em meu bairro na cidade. Era noite já. Fiquei irritado porque precisava fazer coisas no computador e, sem internet, sem eletricidade, não ia conseguir. Como ela não voltou, pensei em dormir mais cedo. A recordação do Sítio, no entanto, veio até mim. Mais forte por causa do ocorrido — a escuridão me fez lembrar de lá — e do trecho do filme que brilhou em minha memória. Aquilo me deu uma ideia. Acendi uma vela, a pus sobre a mesa da sala e comecei a rascunhar este texto. Mais tarde, deitei a cabeça no travesseiro em paz com a lembrança que o blecaute e a película de Kurosawa me fizeram ter: a noite na sua essência — escura, pura e verdadeira. Tão simples e, ao mesmo tempo, tão profunda. A noite que podia se encontrar no Sítio.
§ A K


